05 Janeiro 2011

Templo.

Ela era uma pessoa como outra qualquer, numa sala nem tão grande a ponto de se perder, nem tão pequena a ponto de não se conseguir mexer. Em uma das paredes tinha um pano preto cobrindo a parede inteira, e ninguém sabia o que tinha lá atrás.
A iluminação era daquelas amarelas que parecem velas, era quase uma penumbra aconchegante. Não se via nenhuma janela, mas se existisse, estaria fechada.
Era um evento? Não sei, mas tinham várias pessoas deitadas no chão em roupas cor de pele esperando o momento certo pra começar aquela dança estranha. Estranha sim, pois não era exatamente uma dança, cada hora um levantava e atravessava a sala de seu modo, e logo depois vinha um atrás repetindo parte de seus movimentos e criando seus próprios, girando e aumentando ou diminuindo a energia com que os movimentos aconteciam.
Todos que conseguiam chegar nesta sala ficavam por lá e entravam na dança estranha, até que ela entrou e chegou sua vez.
Se sentia como se fosse a última pessoa a dançar, tinha que se sentir livre, se sentia única. A sala inspirava a confiança que precisava, naquele momento era só ela ali no meio, parecia que todas as pessoas tinham sumido, e aquela imensidão que a sala se tornou era toda dela, uma bolha.
O tempo parou e ela atravessou a sala, ao chegar no extremo resolveu puxar o pano preto.
Tinha uma entrada redonda pra outra sala, no alto escrito: "Nosce te ipsum", e ela pensou: no mínimo sugestivo, nao?
Logo que ia passar pela porta, outro pano surgiu no lugar e no alto escrito: "Tempus Fugit" e ao olhar para trás, via tudo distorcido, e todas as dores e mágoas resolveram voltar a sua memória, sentia o gosto do fel na boca, o estomago ardendo e aquelas frases que sempre quis esquecer voltavam para assombrar.
Eu não te amo, vc não vai conseguir, eu não confio em vc...
Todos os clichês ruins, todas as sentenças que pareciam pequenas facas apunhalando cem vezes suas costas. Todas elas passando mil vezes por sua cabeça.
A luz já não era mais aconchegante, era assustadora e as pessoas já não pareciam se sentir livres, e sim escravas daquele jogo interminável em que o tempo parecia não passar.
Chegou a vez dela novamente.
Ela foi dançar, não queria girar, não se sentia feliz, não podia deixar aquela energia continuar.
Então ela parou no centro, olhou à sua volta, todos os rostos retorcidos e todas as almas presas sofrendo seus rancores.

"São cinco horas e trinta minutos- ela disse, sem ter a menor noção de tempo.- E eu estou num mar de medos."

Tudo ficou escuro, ela se sentiu tonta mais uma vez, estava deitada, sentia todas as pessoas chegando perto.

-

Ela abriu os olhos e acordou.

"Bom dia, vida."

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